Terapia de Casal em São Caetano do Sul
Todo relacionamento passa por momentos difíceis. Mas existe uma diferença entre as dificuldades que o casal consegue atravessar sozinho e aquelas que parecem se repetir sempre da mesma forma — a mesma discussão, o mesmo silêncio, a mesma sensação de distância que volta, não importa o quanto se tente resolver. Quando isso acontece, buscar terapia de casal não é sinal de fracasso da relação. É, muitas vezes, o primeiro passo para compreendê-la de verdade.
O que é a terapia de casal?
A terapia de casal é um espaço criado especificamente para que duas pessoas possam olhar juntas para a relação que constroem — não apenas para os conflitos pontuais, mas para os padrões que se repetem entre elas. Na terapia de casal, o foco clínico pode estar na relação, na interação e na dinâmica do casal: a forma como os dois se comunicam, se afetam, se frustram e se cuidam mutuamente.
A perspectiva psicanalítica contribui de forma particular para esse trabalho. Como descreve Otto Kernberg em Relacionamentos amorosos: normalidade e patologia (1995), a escolha do parceiro e os conflitos que surgem na relação estão profundamente ligados a experiências emocionais anteriores — muitas vezes inconscientes — que cada pessoa traz para o encontro amoroso. Entender essa dimensão é essencial para que o casal deixe de repetir os mesmos impasses.
Henry Dicks, em sua obra clássica Marital Tensions (1967), foi um dos primeiros a descrever como os casais tendem a formar um “encaixe” inconsciente entre suas dinâmicas internas — cada um reconhecendo no outro algo de sua própria história emocional. Esse encaixe pode ser fonte de intimidade profunda, mas também pode se tornar o terreno onde os mesmos conflitos se repetem ano após ano.
Essa ideia ajuda a explicar algo que muitos casais relatam com certa perplexidade: por que as mesmas brigas voltam, com as mesmas palavras, mesmo depois de anos de convivência e de boa vontade dos dois lados. A resposta, na maioria das vezes, não está na falta de amor ou de esforço — está em padrões que operam fora da consciência de cada parceiro, e que só se tornam visíveis quando há um terceiro olhar, treinado para isso, observando a dinâmica de fora.
Quando buscar terapia de casal?
Não existe um único momento "certo" para procurar ajuda — mas alguns sinais costumam indicar que a relação se beneficiaria de um espaço de escuta profissional:
- Discussões que se repetem sempre com o mesmo desfecho, sem resolução real
- Sensação de distanciamento emocional, mesmo convivendo no dia a dia
- Dificuldade de comunicação, com mal-entendidos frequentes
- Perda de intimidade afetiva ou sexual
- Crises pontuais, como uma traição ou uma decisão importante não compartilhada
- Diferenças na forma de lidar com filhos, dinheiro ou família
- Desejo de fortalecer a relação, mesmo sem uma crise instalada
Vale destacar esse último ponto: a terapia de casal não é indicada apenas para relações em crise. Muitos casais buscam o processo para aprofundar a conexão, entender melhor um ao outro ou atravessar transições de vida — como a chegada de um filho, uma mudança de cidade ou a aposentadoria — de forma mais integrada.
Também é comum que um dos parceiros chegue mais convencido da necessidade da terapia do que o outro. Isso não impede o início do processo — parte do trabalho inicial é justamente acolher as diferentes expectativas de cada um em relação à terapia, sem exigir que ambos cheguem com o mesmo nível de convicção desde a primeira sessão.
Como funciona o processo?
As sessões acontecem com os dois parceiros presentes, geralmente com frequência semanal e duração de 50 minutos. O terapeuta não atua como juiz, nem como conselheiro que dita o que o casal deve fazer — sua função é criar um espaço onde ambos possam se expressar e, principalmente, possam ouvir um ao outro de uma forma que o cotidiano corrido raramente permite.
Um dos primeiros movimentos do trabalho é ajudar o casal a sair do ciclo de acusação mútua — o “quem está certo, quem está errado” — para uma compreensão mais ampla de como os dois, juntos, constroem os padrões que os fazem sofrer. Jürg Willi, em A Psicologia do Amor (1992), descreve esse fenômeno como a “colusão” do casal: um acordo inconsciente em que cada parceiro desempenha um papel que, de alguma forma, sustenta o equilíbrio (ainda que doloroso) da relação.
Ao longo do processo, o terapeuta ajuda o casal a identificar esses papéis repetitivos e a compreender de onde vêm — muitas vezes de experiências familiares anteriores ao próprio relacionamento. David e Jill Scharff, em Object Relations Couple Therapy (1991), argumentam que grande parte do sofrimento conjugal reflete a tentativa inconsciente de reparar, através do parceiro, feridas emocionais muito anteriores à relação atual.
Esse é um dos aspectos mais transformadores do trabalho: perceber que o parceiro não é a causa original do sofrimento, mas, muitas vezes, a pessoa em quem se deposita — de forma inconsciente — uma expectativa de reparação que vem de muito antes da relação começar. Compreender isso não resolve o conflito por si só, mas muda completamente a forma como o casal pode lidar com ele: com mais compaixão e menos acusação mútua.
O papel da comunicação
Embora a raiz dos conflitos muitas vezes seja mais profunda do que uma simples “falha de comunicação”, é inegável que a forma como o casal se comunica determina se os conflitos se resolvem ou se acumulam.
John Gottman, um dos pesquisadores mais influentes sobre relacionamentos, identificou em décadas de estudos quatro padrões de comunicação especialmente destrutivos para a relação — críticas generalizadas, desprezo, postura defensiva e a esquiva do diálogo — descritos em Os 7 princípios para o casamento funcionar (1999). Reconhecer esses padrões no próprio relacionamento já é, muitas vezes, o primeiro passo para começar a mudá-los.
Na terapia de casal, o trabalho com a comunicação não se limita a técnicas de “como conversar melhor”. Trata-se de entender o que está por trás de cada padrão — o que uma crítica esconde, o que um silêncio protege — para que a comunicação se transforme não por esforço, mas por compreensão mútua genuína.
Também é comum que, ao longo do processo, o casal descubra que aquilo que parecia ser um problema de comunicação era, na verdade, uma forma de proteção — um jeito de evitar um conflito mais antigo e mais doloroso do que a discussão do momento. Nomear isso, com cuidado e no tempo certo, costuma abrir espaço para uma forma de diálogo mais verdadeira entre os dois.
Mitos sobre a terapia de casal
Alguns receios impedem casais de buscar ajuda quando ela poderia fazer diferença. Vale desfazer alguns deles:
Na maioria das vezes, é justamente o oposto: casais buscam o processo para fortalecer a relação antes que os conflitos se tornem irreversíveis. E mesmo quando a separação é uma possibilidade real, a terapia pode ajudar o casal a atravessar esse momento com mais clareza e menos sofrimento — inclusive quando há filhos envolvidos.
O compromisso do terapeuta não é com nenhum dos dois individualmente, mas com a relação e com a possibilidade de compreensão mútua. Não há julgamento sobre quem está “certo”.
Buscar ajuda é, na verdade, um investimento — muitas vezes o sinal de que ambos ainda valorizam o vínculo o suficiente para cuidar dele com seriedade.
Um receio comum é o de que a terapia vá funcionar como um espaço para provar que o parceiro está errado. Mas o trabalho é sempre sobre a relação — sobre o que os dois constroem juntos — e não sobre determinar qual dos dois precisa mudar mais.
Como é o atendimento no consultório?
O processo começa com uma entrevista inicial com o casal, para compreender a história da relação, as demandas atuais e definir junto com os dois a proposta de trabalho mais adequada. A partir daí, as sessões seguem com frequência semanal, no consultório no centro de São Caetano do Sul ou por videoconferência, conforme a necessidade e a preferência do casal.
O atendimento é conduzido com sigilo, ética e respeito à singularidade de cada relação — sem fórmulas prontas, sem julgamentos e sem pressa em relação ao tempo que cada casal precisa para reconstruir sua forma de se encontrar.
A duração do processo varia de casal para casal. Algumas questões pontuais podem ser trabalhadas em alguns meses; outras, mais estruturais, pedem um acompanhamento mais longo. Assim como na psicoterapia individual, essa definição é construída em conjunto, respeitando o ritmo e os objetivos de cada relação.
Referências
- DICKS, H. V. Marital Tensions: Clinical Studies Towards a Psychological Theory of Interaction. Londres: Routledge, 1967.
- GOTTMAN, J. M.; SILVER, N. Os 7 princípios para o casamento funcionar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.
- KERNBERG, O. F. Relações amorosas: normalidade e patologia. Porto Alegre: Artmed, 1995.
- SCHARFF, D. E.; SCHARFF, J. S. Object Relations Couple Therapy. Northvale: Jason Aronson, 1991.
- WILLI, J. A Psicologia do Amor: o Casamento como Processo de Autorrealização. Petrópolis: Vozes, 1995.
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